Marcados com " transplante de córnea"

Bebida alcoólica através dos olhos: uma estranha e perigosa combinação

16 set 2010 por Lotten Eyes    Sem Comentários    Postado em: Curiosidades


Um dos assuntos desta semana que chamaram a atenção da maioria foi o uso (abuso) da vodka, que tem sido utilizado pelos jovens para ser “ingerida” através dos olhos.

O fato é que este hábito traduz algo já praticado por jovens frequentadores dos Pubs londrinos e pelas garçonetes que trabalham nos bares de Los Angeles em busca de generosas gorjetas.

Os praticantes desta anormalidade de consumo já o fazem em certas condições sobre as quais estão sob efeito do Álcool. As bebidas alcoólicas atuam sobre o sistema nervoso central, causando um estado de euforia que tira a pessoa de seu grau de comportamento normal, e também trazem um certo grau de analgesia. Frente a isso, sem um domínio pleno de suas faculdades e com sensibilidade diminuída e, portanto, mais tolerante à dor, o cidadão inocula álcool diretamente sobre o olho imaginando que isto acelere os efeitos da bebida alcoólica. Os desdobramentos acerca do álcool e seus efeitos sistêmicos são por demais conhecidos, mas aqui a proposta é a de entender o que pode ocorrer nos olhos.

A superfície externa ocular é revestida por um tecido chamado conjuntiva e que na região próxima à córnea apresenta um tipo de célula vital para a transparência corneana. É da transparência da córnea que depende grande parte da visão. Uma vez colocado bebida alcoólica em contato com a conjuntiva e, consequentemente, com estas células (pela mudança de ph), ocorre uma queimadura que, na dependência da concentração de álcool e do tempo de contato, pode levar desde queimaduras leves até queimaduras graves. No caso de lesão destas células, a consequencia é ainda mais danosa, pois uma vez lesada, a transparência da córnea é fortemente prejudicada. E mais, em alguns casos o transplante de córnea pode ser necessário e é o de pior prognóstico, pois as células caliciformes têm papel fundamental na nutrição tecidual.

Evidentemente que isto chama a atenção não só daqueles que se preocupam com a saúde dos olhos, mas também de todos aqueles que concentram sua atenção nas questões da violência. Tratar da questão dos olhos tem suas aptidões técnicas, mas a abordagem do álcool depende de todo um processo sociológico.

O fato é que qualquer substância que possa atingir nossos olhos tem papel que pode ser altamente nocivo. Na dúvida, a orientação é a de lavar copiosamente e, uma vez que se imaginar que a lavagem não foi suficiente, repeti-la, utilizando-se de água natural. Uma vez tratado desta forma o assunto emergencial, o paciente deve ser encaminhado ao médico especialista.

Claudio Lottenberg.

Transplante de córnea à laser: mais rápido e seguro

7 jun 2010 por Lotten Eyes    12 Comentários    Postado em: Transplante de córnea

Há anos estamos nos dedicando à realização de transplantes de córnea. Havia um tempo em que a obtenção de tecido doador era extremamente difícil. Hoje, graças a uma maior sensibilidade por parte dos doadores e uma melhor organização do sistema publico na captação de órgãos, o quadro melhorou, e muito. Agora quem sabe tenha chegado a hora do pulo na esfera da tecnologia.

Temos trabalhado há mais de um ano com o laser de femtosegundo. Iniciamos pelas cirurgias refrativas e, em seguida, adotamos o recurso para implantação de anéis em ceratocone. Agora passaremos a utilizá-lo também para os transplantes de córnea, com o intuito de termos maior segurança e precisão no transplante.

Realizei recentemente no Hospital Albert Einstein o primeiro transplante de córnea assistido por um laser de última geração, chamado femtosegundo (mais rápido que o nanosegundo e que concentra altíssimas quantidades de energia no plano da córnea cortando-a com precisão e reprodutibilidade). Trata-se de um laser ultra-rápido e aplicado com altíssima potência, permitindo que o corte seja realizado de maneira extremamente focada e com baixa lesão dos tecidos circundantes à área trabalhada. Neste caso, o grande ganho é que a precisão oferecida pelo laser femtosegundo permite um encaixe mais preciso da córnea doada com a do receptor. Esse encaixe faz com que a área de contato entre os tecidos receptor e doador seja maior, diminuindo o risco de rejeição e garantindo uma recuperação mais rápida.

Sem dúvida tudo que foi exposto acima pode ser considerado uma inovação. O laser femtosegundo oferece muito mais precisão e previsibilidade, ou seja, além de oferecer mais segurança aos nossos pacientes, conseguimos prever os riscos e os resultados de cada cirurgia antes mesmo da sua realização. Antes da cirurgia, uma análise da córnea do paciente é realizada e alimenta um software que auxilia no planejamento de toda a operação, com foco nos locais exatos de onde devem ser realizadas as incisões.

Durante a cirurgia, além de o médico contar com o mapeamento preciso dos pontos a serem trabalhados com o laser, a rapidez e a potência do equipamento permitem que as incisões sejam realizadas em poucos segundos, praticamente sem riscos. Durante esses segundos, o olho do paciente é mantido imóvel- por um sistema de vácuo e o foco da aplicação é coordenado pelo cirurgião mediante o planejamento dos parâmetros da cirurgia. Além de rápido, o procedimento é possível de ser realizado com anestesia por colírio, o que também oferece mais segurança para o paciente, já que não há necessidade de anestesia geral.

Riscos

Os maiores riscos relacionados às cirurgias refrativas eram os chamados flaps – finas placas de tecido –, que antes eram obtidos por meio de lâminas. Com o laser de femtosegundo esse risco foi minimizado. Os flaps passaram a ser obtidos sem cortes, apenas com a separação dos tecidos por meio de bolhas de CO2 emitidas pela incisão do laser.

Esse aspecto do novo procedimento também oferece mais segurança ao paciente. Essas bolhas são absorvidas pelos tecidos em 24 horas. Portanto, se a incisão for inadequada ou realizada em local errado, o procedimento pode ser abortado – enquanto o organismo absorve as bolhas sem sofrer nenhum dano – e efetivado em outro dia.

Além disso, durante a cirurgia o médico conta com um monitor com imagens digitalizadas que conseguem programar as incisões do laser. É possível visualizar a sua ação antes mesmo das próprias aplicações, possibilitando qualquer correção, caso seja necessária, imediatamente.

Novos formatos de cortes

Durante cerca de 30 anos, os cortes em cirurgias de córnea eram feitos sempre em formato cilíndrico. Com o laser femtosegundo, os cortes podem ter vários formatos. Esta possibilidade é exatamente o que permite um encaixe perfeito dos tecidos no caso dos transplantes.

Recuperação

Com a nova técnica, a recuperação pós-operatória é mais rápida e menos desconfortável para o paciente, porque se reduz a necessidade de suturas (pontos). A qualidade refrativa é melhor com menor indução de astigmatismo no pós-operatório.
Sem duvida um ganho.

Córnea, Cross Link, anéis e o novo tipo de Laser

5 fev 2009 por Lotten Eyes    4 Comentários    Postado em: Novas tecnologias

No passado escrevi sobre a córnea e as técnicas do Cross Link e hoje desejo retomar o assunto com uma visão mais abrangente acerca da própria córnea. Isto porque a patologia da córnea fina e a remoção tecidual causada pelo laser não é de interesse do paciente, o que é compartilhado por uma série de oftalmologistas. O laser, que tem inúmeros atributos tecnológicos, tem indicações precisas, porém, mesmo dentro do rigor necessário, complicações podem surgir e cabe ao médico saber como evitá-las ou como lidar com elas. O paciente, por outro lado, quer a visão perfeita e, mesmo nos casos em que o laser não é utilizado e a córnea afina por uma condição patológica, nosso papel é fazer o melhor sob o ponto de vista de sua visão.

A primeira questão parte do diagnóstico deste afinamento, o que é mais fácil nos casos mais expressivos em sinais e sintomas, mas de grande dificuldade nas formas mais frustras. Estes últimos são pacientes sem qualquer sinal clínico e sem qualquer sintomatologia, mas que em algum exame complementar levanta alguma suspeita diagnóstica. Estes casos merecem muita atenção, pois podem mimetizar algumas condições de maior ou menor gravidade ou até mesmo serem casos que sejam consequência de uso excessivo de lentes de contato. Neste último grupo existe a necessidade de suspender o uso das lentes, o que nem sempre pacientes e médicos acabam fazendo. É aqui a primeira ressalva que temos que fazer, pois cirurgia refrativa, por mais evoluída que possa ser, é um processo cirúrgico em área nobre do corpo e, assim como tudo, tem que ser tratada com muita rigidez e seriedade como requisito de seguraça para o paciente. Este deve suspender uso de lentes com orientação médica, repetir exames, estar disposto a dilatar a pupíla e, insisto com isso, pois muitas vezes as pessoas desejam banalizar o processo, o que não pode ser admitido quando se trata de saúde.

O ceratocone é a doença que mais nos preocupa nas cirurgias refrativas de maneira geral. Caracterizado por um afinamento corneano não inflamatório bilateral, com incidência entre um em cada 2000 pacientes da população. O aumento da curvatura corneana ocorre, com afinamento do ápice e surgimento de astigmatismo irregular. Eventualmente, uma forma de cone na superfície da córnea pode surgir. Embora o ceratocone sempre tenha merecido atenção médica, com o processo de cirurgias refrativas e com o próprio envelhecimento, merece cada vez mais atenção de todos. A questão é que num passado recente, afora o papel da adaptação de lentes e futuro transplante, quando necessário muito pouco podia ser feito, o que não é o caso dos dias de hoje. E ainda, em função das próprias ectasias corneanas que surgem como uma complicação da cirurgia refrativa a laser, muito pode ser feito no sentido de melhora visual. Portanto, um ponto positivo tanto para as doenças do olho herdadas como para aquelas que surgem como iatrogenia.

Falamos sobre o cross link e seu papel no fortalecimento da córnea em casos em evolução. Reforço hoje ainda mais este ponto. E diria ainda mais acerca desta ferramenta, pois ela propõe não só a estagnação de um quadro evolutivo, mas abre a perspectiva para outra inovações que podem ser úteis na restituição da qualidade visual. Portanto, hoje se aventa a possibilidade de fazer-se laser em pacientes portadores de ceratocone pós Cross link, a utilização de anéis corneanos aplicados quase que simultanemente em córneas que seriam submetidas a transplante e, portanto, uma simplificação e um acesso com menores riscos ao paciente. É claro que isso, em grande parte, ainda se encontra em estudo e cabe a nós enquanto médicos trazer aos pacientes as possibilidades, mas sempre dentro da realidade apoiada em evidências cientificas.

O próximo passo que estará em nosso alcance nos próximos meses será o Femtosecond Laser. Este recurso traz maior previsibilidade no corte da córnea. Com isso, aprimorará a forma do médico intervir na córnea com desdobramentos importantes em cirurgia refrativa, nos transplantes de córnea e no tratamento dos afinamentos de córnea como o ceratocone e as ectasias. Reprodutível e mais preciso na capacidade de mensuração traz enormes oportunidades na melhoria dos procedimentos. Com ele estaremos na vanguarda das possibilidades atuais para cirurgia de córnea, mas uma vez mais caberá ao médico equilíbrio e bom senso, evitando riscos, o que é fundamentalmente saber até onde esta tecnologia pode intervir.

A córnea, o ceratocone e os transplantes: novas oportunidades

24 nov 2008 por Lotten Eyes    2 Comentários    Postado em: Ceratocone, Transplante de córnea

A córnea é uma estrutura em forma de lente que trabalha no olho com poder refrativo, isto é, tem importante papel na formação das imagens. É nela que são realizadas a maioria das cirurgias que visam corrigir os erros refracionais, isto é, miopia, hipermetropia e astigmatismo.

Sua relevância chama cada vez mais a atenção da comunidade cientifica e quase todos conhecem a importância dos transplantes de córnea nas reabilitações visuais. Entretanto, frente ao avançar do conhecimento, novos incrementos tecnológicos vêm permitindo que possamos diagnosticar doenças corneanas cada vez mais precocemente e atuar com maior segurança no atendimento de nossos pacientes.

A partir disso, na maioria dos casos é valida uma melhor avaliação da análise topográfica da córnea, que é um verdadeiro mapeamento dos detalhes desta estrutura, feita de maneira habitual na prática assistencial oftalmológica. Este exame, juntamente com outros dados, inclui ou exclui candidatos à cirurgia refrativa e permite que conversemos acerca de uma doença chamada ceratocone por ele detectado, e uma inovação sobre a qual desejo, com vocês, conversar hoje.

A córnea é uma estrutura formada por cinco camadas. A fragilidade estrutural de uma delas pode evoluir para um quadro de astigmatismo progressivo com evoluções permanentes de alta proporção, que podem até culminar em um transplante de córnea. O exame topográfico permite acompanhar a evolução deste quadro.

O fato é que com o envelhecimento, com as cirurgias refrativas e suas consequências, este enfraquecimento cada vez mais se fará presente e, portanto, isso vem se tornando um ponto de importância na visão de um processo assistencial médico-oftalmológico. Durante minha estada na Academia Americana de Oftalmologia, uma das coisas que mais conversamos foi sobre o uso da tecnologia de “cross-link” como elemento terapêutico e/ou regulador do ceratocone. Neste procedimento a córnea passa por um processo de retirada do epitélio (sua camada superficial que depois se refaz), recebe a aplicação de uma substancia de riboflavina que, atuando em âmbito molecular, é irradiada por cerca de uma hora, fortalecendo a estrutura corneana.

Certamente tudo o  que escrevi deve parecer aos olhos de um leigo muito técnico. Mas de fato o importante é a pergunta que formulo a seguir: Isto resolve o ceratocone? Parece que não resolve, mas o fato é que isto impede a progressão e faz com que ocorra uma estabilidade que nos traz novas oportunidades terapêuticas. Em outras palavras, o cross-link “segura” a progressão do ceratocone e culmina com uma oportunidade para medidas menos agressivas, que num extremo poderia incorrer em um transplante de córnea.

Considero isso um avanço de muito significado. Não se aplica somente aos casos de ceratocone, mas também aos pacientes que foram operados de miopia, astigmatismo e hipermetropia e que desenvolveram ectasisas corneanas, isto é, afinamentos progressivos.

A demanda por esta técnica, uma vez disseminada a informação e o conhecimento, deverá ser grande, posto que a prevalência do ceratocone é alta na população. Ganha o paciente, que passa a ter uma alternativa clinica que não existia no passado. Ganha o médico, que tem agora o que oferecer, e não simplesmente acompanhar. Ganha o sistema de saúde, que necessitará possivelmente de menos córneas para transplante e com um ônus muito menor na perspectiva da sustentabilidade.

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