Marcados com " novas tecnologias"

Ensaio sobre a transparência

23 out 2008 por Lotten Eyes    Sem Comentários    Postado em: De olho na saúde

Escrevi este artigo para o jornal Folha de São Paulo no dia 06 de outubro abordando a questão da transparência na área da saúde. Com a chegada das eleições, transparência é um tema que ganha importante destaque, ainda mais se tratando de saúde. Espero que gostem.

Fala-se muito em transparência hoje no Brasil, no mundo corporativo, no cenário político e até nas relações pessoais, pede-se, cobra-se transparência. Mas o fato é que a transparência deixou de ser um processo de observação cristalina para assumir um discurso de políticas de averiguação de custos engessadas que pouco ou quase nada retratam as necessidades de populações distintas.

E, em nome de um cenário confuso, isso vem ocultando, na saúde, dados positivos das organizações sociais e vem servindo como uma bandeira jurídica que, no mínimo, mereceria um melhor entendimento, pois as leis, em tese, são criadas para aprimorar a dinâmica do entendimento social, e não para alimentar uma indústria que se afasta progressivamente das necessidades dos cidadãos.

Transparência em saúde é, sim, o custo de cada processo. Mas é, sobretudo, o entendimento pleno de como funciona, como atende, e como beneficia o cidadão. Alguém com justa e adequada formação tem questionado esses valores da assim chamada transparência.

O SUS é uma referencia global em termos de equidade social, mas ainda deixa muito a desejar nos quesitos integralidade, universalidade e mesmo qualidade. Conceitualmente apresenta números atribuídos, mas na prática, ainda merece grandes aprimoramentos. A política de Estado tem evoluído no sentido de encontrar respostas a tais necessidades.

Quando São Paulo cria organizações sociais e o governo ecoa com propostas com fundações é porque, dentro dos grupos técnicos, com um certo e compreensível tempero político, existe a percepção de que algo tem que ser feito a mais para de fato levar a saúde a toda a população.

Discute-se sua natureza jurídica, mas não a inserção da excelência e dos benefícios do modelo de gestão de algumas entidades privadas na prestação dos serviços. Isso em nada nega os princípios propostos pelo SUS, que preconiza o direito de todos e o dever do Estado de garantir a saúde, mas não explicita quem deve prestá-la.

Imaginar que possamos transformar o sistema em função das necessidades da saúde, deixando de reconhecer que há outras formas de garantir a transparência, significa menosprezar o conhecimento da sociedade.

A inserção da iniciativa privada em modelos mais avançados que o nosso e de maior justiça social não é novo. A Espanha o faz há muitos anos, como acontece em outros países europeus, onde os indicadores de qualidade de vida e de desempenho são superiores aos nossos e aos dos EUA.

Isso tem sua lógica, na medida em que estas sociedades se preocupam também com os custos, mas se acostumaram a lidar com dados sobre os quais quase nada é debatido por parte de nossos mandatários da esfera política. A esfera técnica se esforça e demosntra esse conhecimento, mas, no âmbito político, isso em nada parece afetar a consciência dos que se candidatam aos cargos majoritários. Para eles, trata-se da terceirização da saúde, e não de um debate que se pauta pelo entendimento daquilo que pode ser mais efetivo e eficiente.

Ocorre, portanto, um afastamento das necessidades reais com foco no pior dos valores, que é baseado no dinheiro. E partindo de quem, a rigor, defende a saúde como direito social.

O grau de complexidade de uma organização de saúde é enorme e só tende a crescer, por conta de fatores como o envelhecimento da população, novas tecnologias e o papel da indústria farmacêutica. Quanto mais complexo um sistema, maior o número de conflitos. Imagine um Estado pesado, com natureza licitatória lenta, com rigidez de contratações de pessoal e, portanto, sem vocação para lidar com essas demandas, querendo atuar com um mínimo de qualidade.

Aqueles que acreditam na capacidade do Estado de exercer esse papel fogem por completo do conhecimento dos mínimos quesitos de qualidade em saúde, em que o tempo e a agilidade são absolutamente vitais.

Imaginar que a saúde pode esperar no dia-a-dia ou que as contratações podem se dar ao luxo de aguardar pela obsolescência quase imediata de produtos fragmentados é o mesmo que premiar a incompetência que limita a capacidade criativa de quem deve a rigor ser monitorado dentro de indicadores de eficiência.

O Brasil é um país enorme, com grandes heterogeneidades. Seus habitantes tem necessidades singulares. Aqueles com aptidão a ajudá-los, se não estimulados por cenários competitivos, estarão fadados a não encontrar motivação para o exercício de suas funções.

Albert Einstein defendia que, em termos de justiça e verdade, não existiria diferença entre pequenos e grandes problemas: “Para assuntos relativos ao tratamento das pessoas, todos são importantes”. Portanto, trata-se de ver aquilo que é melhor para o cidadão. E, ai, basta a leitura dos indicadores. Essa é a verdadeira transparência.

Qualidade, um conceito mais amplo

2 out 2008 por Lotten Eyes    Sem Comentários    Postado em: De olho na saúde

No Congresso da Alascsa (Asociación Latinoamericana de Cirujanos de Córnea, Catarata, y Segmento Anterior) que aconteceu em Buenos Aires em um final de semana (4 e 5 de outubro) fui convidado para falar acerca do conceito de qualidade em oftalmologia e entendi que essa informação é útil, tanto para os profissionais quanto para os leigos.

Confunde-se qualidade com o conceito de sofisticação tecnológica. Confunde-se qualidade com o conceito que se atribui ao conforto de instalações físicas. E estes, embora também sejam atributos de uma boa prática, não são os melhores elementos que espelham o conceito da qualidade.

O Institute of Medicine, do Ministério da Saúde Americano, traz no conceito da qualidade um vínculo com a geração de valor. E este valor é representado por algumas áreas de maior importância, sendo a principal delas aquela que se aproxima da segurança do paciente. Qualidade pode ainda estar ligada a atendimento efetivo, eficiente, em prazo adequado e de forma contínua. Assim fica latente que a qualidade de um processo está diretamente representada pelo fato de gerar valor à prática assistencial e que oferte principalmente segurança àqueles que dela necessitam.

Na Oftalmologia, é latente o surgimento de tecnologias novas a cada momento. A remuneração acaba sendo feita em cima destes atributos tecnológicos e não necessariamente do resultado processual. Isto leva a uma prática abusiva em termos de tecnologia e que não necessariamente não reverte à bem de um melhor atendimento oftalmológico. O futuro propõe uma mecânica de relacionamento diferente, na qual os profissionais serão remunerados de acordo com o resultado de suas práticas e não mais pelos dados de cada uma das ações que são realizadas. Isto pressupõe que cada um desses profissionais irá, de forma mais ponderada, avaliar aquilo que agrega valor e evidentemente eliminar desperdícios que não agreguem valor e no sentido mais objetivo, que não agreguem segurança.

Defendo a incorporação tecnológica como um processo qualitativo, mas a enxergo dentro de uma mecânica de equidade que reflete o espírito de inclusão social, tão importante em qualquer economia deste planeta.

Presbiopia: fadiga visual

7 jul 2008 por Lotten Eyes    2 Comentários    Postado em: Presbiopia

Certamente um dos maiores desafios que a oftalmologia apresenta na busca pela melhoria da qualidade visual sem uso de óculos e, após os avanços das cirurgias de catarata e de correção das ametropias, reside na questão da presbiopia.

A partir dos 40 anos de idade, as pessoas passam a apresentar, em quase 100% das vezes, diminuição da capacidade acomodativa, isto é, apresentam dificuldade para enxergar de perto. Isto é fruto do endurecimento do cristalino e/ou da menor flexibilização dos músculos ciliares responsáveis por esta mecânica. Existem condições especificas, como no caso dos míopes, que simplesmente retiram seus óculos para longe e enxergam para perto, mas o fato é que o conforto visual desaparece na visão para todos.

A primeira resposta para isso se deu com o surgimento dos óculos que podem simplesmente ter grau para perto ou associar na mesma armação graus para longe e perto simultaneamente. Entretanto, as pessoas cada dia tornam-se mais exigentes, buscando na tecnologia e nos médicos ações inovatórias.

Uma opção não-cirúrgica seria a adaptação de lentes de contato. A partir daí, uma série de possibilidades se abrem, que vão desde as que apresentam visão para longe e para perto simultaneamente, até a técnica da monovisão, onde um dos olhos fica corrigido para longe e o outro para perto. Neste ultimo caso e mesmo nos demais, o paciente tem que se esforçar no sentido de haver uma adaptação a este novo “modo de enxergar”, se assim podemos dizer.

A exigência fez com que a tecnologia avançasse e certamente aquilo que aconteceu com as lentes de contato também aconteceria no sentido da busca corretiva cirúrgica. Inicialmente, começaram a ser feitas cirurgias corretivas a laser deixando um olho com boa acuidade visual para longe e o outro para perto. Podemos considerar esta técnica (conhecida como monovisão) satisfatória e de relação custo-efetividade adequada.

Porem, novas perspectivas surgiram com a possibilidade do uso das lentes intraoculares quando da substituição do cristalino em casos de catarata e que também apresentam em suas propriedades a multifocalidade. É sim um método invasivo, pois incorre em remoção de cristalino com sua substituição, mas esta técnica vem se demonstrando, nos casos de boa indicação, uma satisfatória resposta ao desejo de se ter boa visão para perto e para longe simultaneamente.

O avanço mais recente e justamente aquele que se mostra mais promissor, embora ainda restrito a pacientes presbitas e que apresentem um pouco de hipermetropia, é o do presbilsaik. Neste procedimento corrige-se o grau para longe e cria-se, por meio da programação do laser, uma pequena alteração esférica chamada “aberração”, que permite trabalhar-se na profundidade de foco conjuntamente com o olho contra-lateral, fazendo com que na visão bilateral exista melhora na sua qualidade para perto. Não são todos os lasers que tem este dispositivo, mas em nossa experiência (com mais de 50 casos operados) podemos dizer que os resultados, se bem orientados, frente as expectativas do paciente, são bastante promissores. Com boa iluminação a visão melhora e o prejuízo para longe se torna mínimo.

O fato é que este processo de diminuição da acomodação afeta a todos nós e as tecnologias deverão buscar respostas cada vez mais eficientes e seguras para seu tratamento cirúrgico. Cabe ao paciente entender que nenhum deles é perfeito, mas que trazem melhorias na qualidade visual. Cabe ao médico analisar criteriosamente, explicar as vantagens e desvantagens de cada um dos métodos e, dentro disso, de maneira criteriosa, decidir qual a melhor alternativa. Nada que possa ser buscado como informação escrita supera o diálogo do médico com o paciente e, portanto, sempre antes de se submeter a qualquer procedimento, esteja seguro de que suas dúvidas foram devidamente esclarecidas.

-