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Por uma saúde sustentável

19 nov 2010 por Lotten Eyes    Sem Comentários    Postado em: De olho na saúde

A resistência da sociedade civil brasileira ao retomo da CPMF é legítima e revela um amadurecimento de sua atuação política. Protestar contra a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira não representa, como eventualmente possa parecer, uma atitude mesquinha de se evitar prejuízos financeiros pessoais.
Diferentemente disso, esse posicionamento mostra que a nação aumentou seu grau de exigência por transparência e mais rigor no acompanhamento da captação e principalmente, do destino dos recursos públicos.

Com clareza sobre a distribuição dos montantes arrecadados para o sistema de saúde aplicação de maior inteligência administrativa, o brasileiro seria suficiente mente compreensivo com a adoção de taxas dessa natureza, já que estaria mais seguro com a concretização das ações do Estado nessa arca.

No mundo todo, a carga tributária aumenta ao longo da história para atender aos interesses coletivos e às mudanças influenciadas, por exemplo, pelo crescimento populacional, oscilações econômicas e conseqüentes fenômenos de ordem sociológica. Nem sempre as medidas relacionadas a impostos criaram mobilizações de oposição. É algo a ser analisado e mais um indicativo de que o governo deve reconhecer que a resolução de problemas nessa área deve ser focada mais em estrutura do que somente em subterfúgios paliativos de financiamento.

Sabemos que os custos da saúde tendem a aumentar pelas novas e importantes tecnologias, por conta da ausência de bons programas de prevenção e, principalmente, pelo envelhecimento populacional, que é considerado o fator que mais irá sobrecarregar as finanças do SUS em um futuro próximo. Por conta dessa realidade, a população precisa exigir mais ações institucionalmente sustentáveis e perenes.
A Emenda 29, de setembro de 2000. Assegura os recursos mínimos para financiamento das ações e serviços públicos de saúde. A definição sobre o que significa o gasto nessa área passou a dificultar o desvio de dinheiro para outros fins. No entanto, precisamos de uma metodologia que permita controlar esses recursos dentro do próprio sistema de saúde. E isso é um dos diversos pontos sensíveis de uma gama de ajustes para a resolução sustentável dos desafios do SUS.

É preciso aplicar modelos de gestão mais eficazes para aperfeiçoar o uso do aparelho disponível. Além da falta de regulação para destinar verbas, estamos carentes de uma organização gerencial mais qualificada na administração pública, com capacidade técnica e entendimento das necessidades e peculiaridades regionais. Falta também esclarecer lideranças e a própria sociedade sobre o fato de que saúde não se constrói apenas com mais leitos e unidades hospitalares – destino de recursos provenientes de impostos como a CPMF. É por conta desse tipo de mentalidade que se perpetuam as deficiências de um serviço que deveria dar conta de um direito universal para o nosso desenvolvimento como nação.
Para lidar com uma nova realidade da medicina, que tenta responder às necessidades grandes demanda e altos custos, o profissional de saúde não pode se limitar ao conhecimento técnico da prática hospitalar. A nova gestão exige um perfil que entenda os desafios da área e se integre as práticas de excelência, que vão desde a aplicação de protocolos médicos mais bem delineados a modelos de atendimento que buscam mais prevenir do que tratar. A necessidade é clara, mas sempre nos deparamos com a fraqueza de capacitação de mão de obra e a tradicional morosidade e burocracia do funcionalismo publico.

Precisamos contar com profissionais capacitados, para lidar com desafios gerenciais relativos a planejamento e altos custos. Ao passo que a medicina avança, a tecnologia encarece a prestação de serviços, e a indústria de insumos hospitalares e farmacêuticos se aquece pela busca frenética por lucratividade. Isso dificulta a ponta da cadeia responsável pelo rendimento ao paciente.
Conceitualmente, o SUS é um bom sistema e realizou diversas ações lúcidas, como o Programa Saúde da Família e a aplicação das AMAS, mas está carente de um Plano Diretor, que amplie a visão estreita até então incapaz de resolver seus principais problemas. O retomo da CPMF vai dar continuidade ao estimulo do desperdício de dinheiro público, estendendo e talvez amplificando suas deficiências. Antes de consolidar as origens de seu financiamento, o SUS precisa de plataforma estrutural consistente, que possibilite mais transparência. Isso só poderá ser viabilizado com avançadas praticas de gestão e continuidade da exigência do brasileiro por ações sensatas, eticamente inquestionáveis e de caráter duradouro.

CLÁUDIO LUIZ LOTTENBERG
EX-SECRETÁRIO DA SAÚDE DE SÃO PAULO, É PRESIDENTE DO HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN

Matéria publicada no jornal “O Estado de São Paulo” em 14/11/2010.

A Receita de Obama para a saúde

27 abr 2009 por Lotten Eyes    Sem Comentários    Postado em: De olho na saúde

“O impacto financeiro das inovações tecnológicas é uma questão que preocupa responsáveis por saúde pública no mundo inteiro”

Desde que o presidente Barack Obama assumiu o comando da Casa Branca, o mundo acompanha com expectativa suas decisões relativas à economia e às relações internacionais. Tudo o que ele disse sobre esses temas no discurso de posse repercutiu intensamente e continua no foco dos analistas.

Mas há outros pontos importantes na agenda política do novo presidente, mencionados na posse, que merecem destaque, como os cuidados com a saúde da população. Durante a campanha que o levou a uma eleição histórica, o candidato prometeu curar os males do sistema de saúde americano, que, entre outros sintomas, deixou 47 milhões de pessoas sem assistência.

E, no discurso no qual relembrou os desafios a serem enfrentados por seu governo, apresentou a receita para tratar do problema: “Vamos restaurar a ciência ao seu lugar de direito e empregar as maravilhas da tecnologia para elevar a qualidade da saúde e reduzir seus custos”. Em espiral ascendente nas últimas décadas, atualmente cinco vezes acima da inflação do país, os gastos com saúde nos EUA absorvem 16% do Produto Interno Bruto, representando US$ 2,3 trilhões no ano passado.

Segundo estimativas, 40% desse total se devem às sucessivas inovações tecnológicas introduzidas no campo da medicina, consideradas uma das principais causas da elevação dos custos dos serviços de saúde para os pacientes, os hospitais, os governos e a sociedade em geral.

O impacto financeiro das inovações tecnológicas é uma questão que preocupa responsáveis por saúde pública no mundo inteiro. No Brasil não deveria ser diferente, porque esse custo supera qualquer outro indicador de crescimento econômico e, principalmente, a capacidade de pagamento dos usuários.

Um procedimento de angioplastia (desobstrução de artérias), por exemplo, que custava R$ 9.400 em 2001, hoje custa R$ 55.000, um aumento de 485%. Um estudo sobre a estrutura de custos da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Israelita Albert Einstein mostrou que os preços dos medicamentos subiram 170% nos últimos dez anos. Observa-se é que parte substancial dos recursos contabilizados na área de saúde é drenada para a indústria de equipamentos, próteses, remédios e fornecedores de outras novidades nas mais diversas especialidades.

Indiferentes ao distanciamento cada vez maior da capacidade de pagamento das famílias, dos planos de assistência e do governo, algumas empresas vão aumentando seus lucros, valorizando o preço das suas ações nas Bolsas e tendo como única preocupação os dividendos dos acionistas. No modelo vigente, os elevados investimentos realizados em pesquisas são decididos em função do planejamento mercadológico das empresas, considerando objetivos de “market share” ou de rentabilidade.

Naturalmente, isso não contempla trabalho em rede (que evitaria ter muita gente fazendo o mesmo nada para nada) nem a prática assistencial -e muito menos o que seria o principal para a medicina, que é a pesquisa translacional, ou seja, procurar conectar a investigação científica ao tratamento dos pacientes, a chamada pesquisa na beira do leito, aquela pesquisa que efetivamente agrega valor ao tratamento.

Nem todas as inovações agregam valor ao atendimento do paciente, que é quem deve ser considerado o cliente nesse processo. Por isso é preciso determinar com precisão quando uma terapêutica, um produto ou um equipamento é realmente superior ao que está em uso no momento. A escolha entre o que agrega valor e o que agrega apenas custo para a sociedade é uma tarefa complexa. Como nem todos os profissionais dispõem de recursos para uma análise criteriosa, prevalecem as estratégias de venda dos fornecedores.

Assim, os interesses comerciais se sobrepõem às demandas sociais. E as “maravilhas da tecnologia”, mesmo que não melhorem a qualidade dos serviços, continuam inflacionando os custos da assistência médica.

Já se disse, com razão, que o que é bom para os Estados Unidos não é necessariamente bom para o Brasil. Os sistemas de saúde dos dois países são diferentes, os valores de investimentos em ambos também são muito diferentes, mas, quando se trata do impacto das inovações tecnológicas, elevando os custos dos serviços a níveis preocupantes, a situação e os riscos são os mesmos. E, nesse caso, a receita do presidente Obama pode estar indicando o melhor remédio.

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